Após tantos anos, ainda permaneço inerte aos mesmos pensamentos. Hoje envelhecido, encontro-me no mesmo café. Tinha 25 anos. Ou 28. Uma coisa ou outra. Naquela época compunha eu um ateliê, conjunto com alguns amigos meus. Andávamos fatigados por aquela velha guarda, a dos parnasianos. Havia ainda respingos da Belle Époque, movimento no qual países europeus decidiram deixar translúcidas suas belezas ao mundo. Tudo se somava às aparências. A Art Nouveau, composta da voluptuosidade dos quadros de Alfonse Mucha, enchia o ar de curvas e idéias para uma libertação. Aspirávamos por revoluções, éramos jovens, jovens insaciados pela velha arte. A indústria do divertimento esbanjava brilhantismo, onde o glamour da família era freqüentar as salas de cinema, lotadas, por serem alvos da ascendência social.
No nascimento da República Brasileira, a língua que nos era empregada baseava-se no grego e latim. Farmácia e comércio eram pharmacia e commercio, mudando somente em 1943, com Vargas.
Encontrava-me naquele fatídico ano de 1922, no qual realizou-se, no teatro municipal de São Paulo, a “Semana de Arte Moderna”. Mal podíamos esperar para a estréia daquela nova arte, de que tanto fazia escárnio, aquele metido, o Monteiro Lobato. Estive presente desde o dia 13 a 17 de fevereiro, todas as noites. Os espetáculos eram levados ora por vaias, ora por aplausos, tudo para que não se pudesse fazer ouvir o que nos era apresentado. Por este mesmo motivo, aquela arte me intrigava. Vinha enraizada de vanguardas formadas durante as guerras na Europa. Aderimo-nos, eu e meus colegas, ao movimento, querendo repercuti-lo também com nossas obras. Grandes mestres, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, tomavam lugar nas apresentações de poemas anunciando uma nova era literária. Villa Lobos sentava-se ao piano, saindo de partituras regradas pelo clássico. Anita Malfatti apresentava-nos um novo olhar sobre o mundo em suas telas.
Concordamos em assinar a revista O Malho, para que pudéssemos nos interar sobre a febre que fervilhava no país. Durante nossas rotinas no ateliê, lembro-me de que Paulo, o mais jovem entre nós, estava enamorado. Mal chegava e antes de qualquer ato, ligava o toca-discos. Ficávamos a pintar envoltos pela nova onda, chamava-se jazz. Paulo contáva-nos sobre sua amada. De como vestia-se! Era moderna... já largado o espartilho, mostravam-se as pernas provocantes.
O Brasil inclinava-se a receber, mesmo que relutante, as vanguardas europeias que acabavam de abrir o caminho, incentivando nossos artistas a encontrar um movimento nosso, brasileiro.
O tilintar da xícara trouxe-me de volta ao café. Esses devaneios ficam cada vez mais frequentes com o passar do tempo. Tenho 90 anos. Sou uma alma jovem, na carcaça de um vivido.
Grupo: Davi de Boni, Eduardo Zattera, Isadora Franzoi, Luana Boff, Pedro Henrique Volpato dos Santos, Rafael Boff e Raíssa Mattana.
Turma: 301
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